A família foi submetida à dinâmica de mudanças desde a sua origem. O que hoje chamamos de família, por exemplo, é bem diferente da família romana. Tão diferente que nenhum pai contemporâneo ousaria se espelhar o modelo do longínquo “paterfamilias”, gestor de uma maquina para adquirir e manter riquezas.
O próprio modelo de constituição da família se alterou enormemente. Será que todos nos lembramos que o rapto já foi uma pratica corrente – e legitimo – para a constituição de lares? Mais comum que o rapto foram os expedientes dos arranjos patrimoniais familiares e a compra. Ainda hoje, em varias partes do mundo, instituição do dote é de tal modo, imperativa, que podemos considerá-la como sucedâneo da compra.
Os avanços o aperfeiçoamento do regime familiar não impediram, contudo, que certas praticas arcaicas – e que hoje são consideradas modernas – se mantivessem como realidades sociais, tais como o divorcio, o concubinato, as relações extraconjugais.
A partir do século XI, sobretudo com o desenvolvimento das universidades em toda a Europa, renovaram-se os saberes filosóficos, jurídicos e teológicos, possibilitando substancial remodelagem de idéias sobe sexualidade, matrimonio e família. Impensável, hoje, ou pelo menos inadmissível, que uma família seja constituída ao arrepio do mutuo consentimento entre um homem e uma mulher, que chamamos de matrimonia-aliança.
Não obstante, os tempos atuais lançam uma serie de novos desafios para a família. Para alguns, vivemos numa sociedade pós-matrimonial. As relações sexuais fora do matrimonio não chegam a causar espanto, inclusive porque as modernas tecnologias facilitam o controle da natalidade. A estabilidade já nem sequer é considerada em varias camadas da sociedade, tomando-se todas as precauções jurídicas para o dia de amanhã, mesmo porque o divorcio, essa “perola” legada pelo militarismo do governo Geisel, mediante voto secreto de um parlamento desde aquela época com vocação para a falta de grandeza moral, é concedido com bastante facilidade.
Os intelectuais propõem novos horizontes derivados dos estudos psicológicos sobre a natureza da afetividade humana, chegando-se mesmo a aspiração de, como se diz, “uma sociedade sem pai”.
As grandes mudanças sociais, históricas, políticas, econômicas repercutem na vida familiar. Poderíamos lembrar, dentre outras, a revolução agrícola (que propiciou diversas formas de estar junto marido, mulher, filho e agregados), a revolução industrial, os fluxos migratórios, as políticas salariais, habitacionais, sanitárias, etc.
A comemoração do Dia dos Pais, atualmente, nos coloca vários tipos de reflexões. É claro que todo pai gosta de ser paparicado. Mas, para alem dos almoços, desenhos das crianças, gravatas, cintos, carteiras, meias, garrafas de vinho e camisetas de times de futebol, o que mais deve ser comemorado? Será que os pais ainda são os garantidores daquele espaço de convívio, cumplicidade, sociabilidade, liberdade e, sobretudo, dialogo e amor sem os quais a vida torna-se invivível? Será que o lar que os pais proporcionam aos filhos ainda é o espaço humanizante e de alegria?
A família mudou e ainda vai mudar. Mas há algo que não muda e que assegura o principio da continuidade evolutiva: os pais. Não existe pai sem mãe. Se for verdade, como nos ensinam os cientistas, que num certo momento deve ter havido uma auto-reprodução, a partir da superação desses estagio então todo ser vivo tem um pai/mãe. E quem diz “pai” diz fonte de vida. Por isso o “Pai Nosso” é a oração mais perfeita, ela nos une – na concepção dos cristãos – ao Pai comum, nosso Pai celestial. Ele é o nosso único modelo de perfeição (MT 5,48), do qual nasce uma justiça superior, que supera todas as diferenças para nos congregar unicamente como irmãos, como família.
É claro que a nossa alegria imediata volta-se, no Dia dos Pais, para o pai que temos mais próximo, que é a fonte imediata de nosso nascimento, do qual inclusive herdamos o nome. É também verdade que somente o registro do nascimento não nos leva muito longe. Mas com a nossa imaginação refazemos o percurso de uma alucinante aventura, que remonta a bilhões de anos e nos projeta na origem da própria vida em nosso planeta. Velho ou jovem, o nosso pai tem, de fato, uma historia de bilênios. Ele, eu e você, caro leitor, somos os derradeiros rebentos da imensa arvore da vida.
Realmente , temos de venerar e celebrar os nossos pais!

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